domingo, 27 de janeiro de 2008

Resistência gráfica guarani

O plebiscitário republicano Francisco Miranda não foi contemplado com heranças materiais nem se aproveitou da guerra e do poder para conquistar fortuna, como muitos de seus antigos companheiros. Por isso, aos cinqüenta anos retomava o ofício de rábula (advogado autodidata) para sobreviver. Coerente com suas convicções, o velho Chico defendia os que não dispunham de benesses políticas ou dinheiro. Suas petições traziam impressa a seguinte expressão:

Quem à causa dos fracos se dedica,
solidário direito reivindica.

Certa feita, no final de 1898, uma disputa judicial de terras entre o general Lima e um nativo de origem guarani ou charrua conhecido como Xumã protagonizou uma das mais inacreditáveis páginas da história da formação da propriedade rural na região. O escrivão da comarca de São Borja alemanizou a grafia do nome indígena e escreveu Chumann no lugar de Xumã.

Naquela época corriam boatos alarmistas sobre um suposto plano de invasão alemã ao Brasil, comandada por Bismarck. Havia um clima desfavorável a qualquer pretensão germânica por aqui. Ainda que, na verdade, o invasor em questão fosse nativo guarani ou charrua alemanizado.

Para a sua conveniência, como dizem os ingleses (expressão usual do inesquecível José Otávio Ferlauto).

Na defesa do seu cliente, o velho Chico desabafa:

Na luta pelo direito nem sempre podemos emoldurar a urbanidade peculiar às relações pessoais, principalmente quando a causa que defendemos representa um protesto contra o acúmulo de injustiças seculares como sejam as expropriações infinitas das terras, de seus primitivos e verdadeiros donos – os índios naturais – pelos brancos civilizados, que, proclamando a teoria do direito da propriedade, as foram usurpando...

Esse episódio estimula reflexões sobre a coerência histórica do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). Talvez a mobilização dos sem terra seja inspirada pelo espírito alemão guaranítico de um Schiffer Tiaraju, por exemplo. Proclamando pelas coxilhas, banhados, capões de mato, restingas, paredões, ranchos de lona preta nas beiras de estrada e nos acampamentos: que esta terra ainda tem donos. Revisando a grafia e lembrando aos invasores que Xumã se escreve assim, na resistência gráfica missioneira.

Não foi a primeira vez que os papéis se inverteram em São Borja. Antes, outro nativo foi tratado como invasor pelos usurpadores estrangeiros: Andrés Guaçurary y Artigas. Filho de nativa são-borjense com pai espanhol desconhecido, dizem que Andresito Artigas morreu envenenado nos fundos de um calabouço no Forte de Santa Cruz, na Ilha das Cobras, Rio de Janeiro, sem ter realizado o sonho de recuperar sua terra.

Igual ao MST hoje, rotulado como invasor em sua própria terra. Perseguido pelas cobras jurídicas, policiais, políticas e econômicas: os brancos civilizados. Jogado nos fundos dos calabouços institucionais legitimados por um poder judiciário fora do controle da sociedade. Sobrevivendo nas periferias constitucionais da nação inundada pelos rios insalubres de todos os meses desses anos obscuros, veiculados pela mídia segundo o interesse dos expropriadores do estado.

São Borja chegou a eleger deputados constituintes para elaborar a constituição da República Missioneira, sonhada por Artigas. No intervalo entre a eleição e a posse dos parlamentares houve o acordo entre as coroas espanhola e portuguesa. A posse da terra foi para as cabeças coroadas portuguesas, mas o sonho republicano sobreviveu no coração popular missioneiro como uma utopia latente. Talvez a Moção Plebiscitária tenha sido sua eclosão das cinzas em terras brasileiras. Pelo menos é nisso que acreditam os radiorrepublicanos (conforme o batismo de fogo de La Vieja Bruja, benção padrinho Marcelo).

É bom deixar claro que todos aqueles que reconhecem no episódio parte da nossa identidade nacional sonegada devem agradecer e homenagear o historiador são-borjense Fernando Otávio Miranda O’Donnell. Descendente de Aparício Mariense e Francisco Miranda, Nando é o autor da obra Francisco Miranda Vivendo a República (foto), publicada no ano do centenário da Moção Plebiscitária (1988) pela Prefeitura e pela Câmara de São Borja, apresentada por Apparício Silva Rillo e prefaciada por Carlos Reverbel.

Os radiorrepublicanos não escondem suas fontes, de inspiração.

3 comentários:

Júlio Garcia disse...

Eduardo: temos que beber mais destas fontes - nossas, genuínas ... e tão absurdamente desconhecidas. Que bela - e grande - figura foi esse Chico Miranda! 'O Boqueirão' pede licença e vai também postar esse artigo.
Forte abraço.

Anônimo disse...

O MST, sem dúvida, refaz o caminho e o papel dos camponeses de Canudos e do Contestado. Luta solitária, incompreendida, mas, como dizia Brizola: vêem de longe e têm futuro histórico.

Aqui, no interior de S.Paulo, o MST é exemplo de organização e produtividade.

armando

Cristóvão Feil disse...

Boa idéia, Eduardo. Ganhei esse livro sobre o Chico Miranda aí em S. Borja lá pelo quaternário. Irei relê-lo com atenção.
Abç.